Mini Biografia Mãe Beata

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Sou de uma religião em que o tempo é ancestralidade. A fruta só dá no seu tempo, a folha só cai na hora certa.
Beatriz Moreira Costa,- Mãe Beata de Iemanjá

Beatriz Moreira Costa é Yalorixá (sacerdotisa suprema dos candomblés de origem Ketu-iorubá), escritora, atriz e artesã, desenvolve trabalhos relacionados à defesa e preservação do meio ambiente, aos direitos humanos, à educação, saúde, combate ao sexismo e ao racismo.

Beatriz Moreira Costa, mais conhecida como Mãe Beata de Iemanjá, nasceu em 20 de janeiro de 1931, em Cachoeira de Paraguaçu, Recôncavo Baiano, filha de Maria do Carmo e Oscar Moreira, seus exemplos de vida.

Sobre seu nascimento, Mãe Beata relata:

Minha mãe chamava-se do Carmo, Maria do Carmo. Ela tinha muita vontade de ter uma filha. Um dia ela engravidou. Acontece que, num desses dias, deu vontade nela de comer peixe de água doce. Minha mãe estava com fome e disse: Já que não tem nada aqui, vou para o rio pescar. Ela foi para o rio, e, quando estava dentro d’água pescando, a bolsa estourou. Ela saiu correndo, me segurando, que eu já estava nascendo. E nasci numa encruzilhada. Tia Afalá, uma velha africana que era parteira do engenho, nos levou, minha mãe e eu, para casa e disse que ela tinha visto que eu era filha de Exu e Yemanjá. Isso foi no dia 20 de janeiro de 1931. Assim foi meu nascimento.

Na década de 1950, Mãe Beata muda-se para a cidade de Salvador, ficando aos cuidados de sua tia Felicíssima e o marido dela Anísio Agra Pereira (Anísio de Logum Ede, babalorixá[1]). Durante dezessete anos, Beata (como é conhecida desde a infância) foi abiã[2] de seu tio que, posteriormente, falece levando-a a procurar Mãe Olga do Alaketu que a inicia para o orixá Iemanjá no terreiro Ilê Maroia Laji. Sua mãe Maria do Carmo, antes de falecer, tutela a filha a sua yalorixá[3] Olga do Alaketu.
Mulher, que mesmo presa a princípios tradicionais em razão da influência de uma família patriarcal, torna-se de vanguarda ao fazer cursos de teatro amador e participar de grupos folclóricos. Casa-se com Apolinário Costa, seu primeiro namorado, com quem teve quatro filhos (Ivete, Maria das Dores, Adailton e Aderbal Moreira Costa).
Em 1969, Beata separa-se do marido e migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida para ela e sua prole – história comum a tantas outras mulheres negras nordestinas. Para as famílias tradicionais da Bahia, naquela época, mulher separada era mulher de ninguém, ainda mais com quatro filhos. Canta-se num samba-de-roda baiano: “samba bom é de madrugada, mulher sem homem não vale nada”. Por certo, não se enquadrava nesse perfil a figura dessa mulher ímpar em questão.
Beata cria seus filhos com muita dificuldade, porém de modo digno, exercendo várias funções (empregada doméstica, costureira, manicura, cabeleireira, pintora e artesã) para prover o sustento próprio e o da família.
Trabalha como figurante na Rede Globo de Televisão, atividade resultante de contatos já existentes em Salvador, onde participou da novela “Verão Vermelho”, filmada na referida cidade. Logo após conseguiu trabalho como costureira na mesma empresa, função da qual se aposentou e mantém contatos de amizade até os dias de hoje.

Apesar de todas essas atividades e uma jornada árdua de mulher negra nordestina, ainda por cima com os fortes estigmas de mulher separada, Beata não se esquece dos seus laços religiosos – atuou em várias comunidades de terreiro no Rio de Janeiro mantendo e preservando sua descendência ancestral religiosa negra.
Em 20 de abril de 1985 sua Mãe Olga do Alaketu[4] vem ao Rio de Janeiro, no bairro de Miguel Couto, Nova Iguaçu, outorgar a sua filha o direito de ser chamada de mãe. Daí, então, ocorre a fundação da Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuarô (Casa das Águas dos Olhos de Oxóssi) onde Beata de Iemanjá ocupa o cargo de yalorixá.
A partir desse momento, Beata passa a utilizar o espaço da Casa de Candomblé como referência da resistência da Cultura, Religião, Cidadania e Dignidade da população Afro-brasileira. Transmite à comunidade de forma natural toda sua experiência de luta, absorvida facilmente por todos, o que dá início a sua participação ativa em discussões sobre os problemas raciais, sociais e políticos, com enfoque principalmente sobre as mulheres negras.

Seu empenho é logo reconhecido, sendo agraciada com diversas moções, diplomações e convites para palestrar em eventos, como o Fórum Global em 1992, no grupo mundial pela paz.
Escritora retrata a realidade da tradição das Comunidades de Terreiro nas obras “Caroço de Dendê, Sabedoria dos Terreiros”, “Tradição e Religiosidade” in O livro da saúde das mulheres negras e “As histórias que minha avó contava”, publicadas em 1997, 2000 e 2005, respectivamente.
Atualmente está empenhada em atividades relacionadas à educação de jovens, ao combate a violência contra a mulher e à saúde da população negra, bem como apoio, através da participação em ação judicial, às ações afirmativas na UERJ.

TRAJETÓRIA

Mãe Beata desenvolve atividades voltadas ao combate à intolerância religiosa, à discriminação racial e de gênero, violência contra a mulher, prevenção das dst/hiv/aids e câncer de mama, e, defesa do meio ambiente em nível comunitário, local e regional.

Yalorixá do Ilê Omiojuarô, instituição religiosa, sem fins lucrativos, cujo objetivo é zelar e preservar a tradição e cultura afro-brasileira e combater a discriminação racial e de gênero. É presidente da Ong Criola (organização de mulheres negras que atua contra o racismo e o sexismo), integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher – CEDIM e conselheira do Projeto Ató Ire – Saúde dos Terreiros e também da Ong Viva Rio.

A população negra de um modo geral e, particularmente, as mulheres, adolescentes e meninas negras que fazem parte das ações de CRIOLA são beneficiadas com o trabalho realizado por Mãe Beata de Iemanjá, que, atua na área de preservação da tradição e cultura afro-brasileira, combate a intolerância religiosa desde que inaugurou a sua Casa de Candomblé – Ilê Omiojuarô – em 1985, em Miguel Couto, na Baixada Fluminense.
Desde então, vários jovens foram capacitados para a utilização de computadores, e, outros tantos, beneficiaram-se com a possibilidade de concluir o ensino fundamental através do auxílio do projeto Acelera Jovem (voltado para jovens entre 15 e 25). Mulheres de diferentes idades recebem orientação para prevenir-se em relação às dst/hiv/aids e o câncer de mama, também quanto aos seus direitos à saúde. Todos são informados sobre as formas de enfrentamento do racismo e do sexismo na realidade social em que vivem.

CONTATO:
Mãe Beta de Iyemonja
Ilê Omiojuarô/INDEC
Endereço: Rua Francisco Antonio Nascimento nº 42 – Miguel Couto. Nova Iguaçu – RJ – Brasil. CEP.: 26.147-140
Tels. 55 21 28861432
E-mail: beatadeyemonja@gmail.com
adailtomoreira@yahoo.com.br

[1] Babalorixá é o sacerdote supremo do candomblé de origem keto-iorubá.

[2] Abiã é a pessoa que ainda não passou pelo ritual de iniciação no candomblé

[3] Yalorixá é a sacerdotiza suprema do candomblé de origem keto-iorubá.

[4] Falecida em setembro de 2005.

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